Argentina em 2026: o hospital federal passou a cobrar antes de quem não tem seguro
Desde 12/08/2026, o hospital do governo federal argentino cobra antes de atender o estrangeiro sem residência permanente e sem seguro. O que mudou e o que conferir antes de viajar.

Carlito de SouzaCorretor de seguros desde 1997
Neste artigo 5 partes
Quarto dia de viagem pela Argentina. O joelho que reclamava desde a trilha piora, e o médico chamado ao hotel pede um exame de imagem. No hospital do governo federal, a primeira pergunta não é sobre o joelho: é se você tem seguro. Sem ele, vem um orçamento, a fila do caixa e o pagamento de tudo, antes. O exame só acontece com o recibo na mão.
A cena é inventada. A regra, não: vale desde 12 de agosto de 2026.
O que mudou, e desde quando
O Ministério da Saúde da Argentina publicou a Resolução 1066/2026 no diário oficial do país em 11 de agosto de 2026. Ela vale desde o dia seguinte, 12 de agosto, e põe em prática uma mudança que a Lei de Migrações argentina recebeu em 2025.
Quem é afetado. Todo estrangeiro que não tem residência permanente, a autorização para morar no país de forma definitiva. O critério não é ser turista: quem tem residência temporária também entra. A norma não abre exceção por nacionalidade nem para o Mercosul, e não distingue quem chega de avião, ônibus, carro ou moto.
Quais hospitais. Os administrados pelo governo federal argentino. A norma não traz lista, e as que saíram na imprensa argentina são diferentes entre si: o Chequeado citou cinco hospitais nacionais em 11/08; o Crónica noticiou, em 01/09, a adesão de outros quatro. Nenhuma é oficial. Hospital de província ou de prefeitura fica fora desta resolução, o que não quer dizer que atenda de graça.
O que é cobrado, e quando. Sem seguro, consulta, exame ou procedimento marcados seguem o roteiro da cena: orçamento pela tabela do próprio hospital, pagamento integral no caixa (em pesos ou por meio que o hospital aceite) e recibo, o único papel que a equipe médica pode exigir. No atendimento sem hora marcada e sem risco de vida, a norma também pede pagamento ou seguro antes, mas não descreve o passo a passo do pronto-socorro.
O que continua sem cobrança antes. A urgência que põe em risco a vida, um órgão ou uma função do corpo: parada cardiorrespiratória, AVC, infarto, trauma grave, hemorragia, queimadura extensa, parto iminente, entre outros exemplos da norma. O hospital avalia, diagnostica, estabiliza e trata de imediato, sem que papel ou pagamento atrasem nada. Na dúvida, atende primeiro, e quem decide se é urgência é o profissional de saúde.
Essa parte vai até o paciente estabilizar. Para quem está sem seguro, a norma manda o hospital somar os gastos do fim da emergência até a alta e cobrar ali mesmo.
Quem tem seguro e quem não tem
Com seguro, o hospital confere três coisas: se o seguro existe, se está valendo nas datas e até onde ele vai. Depois monta uma pasta com a cópia do passaporte, o voucher (o comprovante do seu seguro viagem), os dados da seguradora (nome, número da apólice, telefone internacional de emergência, e-mail de autorizações) e um formulário chamado Declaración Jurada de Cobertura Internacional. Nele, você ou quem te acompanha autoriza o hospital a trocar informações com a seguradora. Leia antes de assinar. Esse formulário é do hospital e não tem relação com a entrada no país.
Se o seguro não paga tudo, a diferença fica com o paciente, que pode pagá-la ali mesmo.
Quando há internação, quem avisa a seguradora em até 24 horas é o hospital, por e-mail, pedindo o número do caso. É obrigação dele, não sua. Ainda assim, ligue para a central do seu seguro viagem no primeiro contato com o hospital: se o seu contrato pede aviso em algum prazo, esse prazo está nele, e não na norma argentina.
Na alta, o hospital emite o resumo do atendimento, o detalhe do que foi feito e a conta, em pesos, e manda tudo à seguradora, que tem 45 dias corridos para pagar. Passado esse prazo, a norma prevê cobrança na Justiça, sem dizer contra quem.
Sem seguro, paga-se antes: no caixa, para o que é marcado; e, depois de uma urgência, os gastos até a alta.
O que este artigo não consegue dizer, com data de 15/10/2026:
- Valores. Cada hospital cobra pela própria tabela, e não encontrei tabela pública. A norma também não fixa um valor mínimo de seguro.
- Uma lista fechada de hospitais. Não existe lista oficial, e cada hospital pode detalhar o próprio procedimento.
- A entrada no país. A lei argentina prevê uma declaração de que o viajante tem seguro de saúde, exigível só depois de regulamentada, e até 15/10/2026 não encontrei a regulamentação. O que está confirmado hoje é a regra do hospital.
Antes de embarcar: 8 conferências
- O seguro em papel e no celular. Voucher, número da apólice, nome da seguradora e e-mail de autorizações: é o que o hospital pede para montar a pasta. Leve também o passaporte: é o documento que a norma cita.
- O telefone internacional da central de atendimento do seguro, a chamada assistência, salvo no celular e anotado no papel, para o dia em que a bateria acabar.
- Quanto o seguro paga, no máximo, em despesa médica e de hospital. O hospital confere esse valor, e o que passar dele é com você.
- Se ele vale em hospital público, e não só em privado. É no hospital público federal que a regra nova vale.
- Doença que você já tinha antes de viajar, como pressão alta ou diabetes. Leia o que o contrato diz sobre ela antes de sair, e não no pronto-socorro.
- Todo papel que o hospital entregar: orçamento, recibo do caixa, resultados de exame, notas e o resumo do atendimento. Na alta, peça cópia do resumo e do detalhe do que foi feito.
- O pedido de reembolso, se você pagou do próprio bolso: ele sai conforme o contrato, com os papéis do item 6 e dentro do prazo que o contrato der.
- Três perguntas ao contrato antes de sair. Como ele paga uma conta que vem em pesos, e por qual câmbio? Exige que você avise em algum prazo? Vale para quem dirige ou pilota, se a viagem é de carro ou de moto? O que não estiver claro, pergunte por escrito e guarde a resposta.
Perguntas que o leitor faz
Vale para brasileiro? Sim, pelo texto: a norma não abre exceção por nacionalidade nem para o Mercosul, e vale também para quem está só de passagem. Fonte: Resolução 1066/2026, Anexo, art. 1º.
A Argentina exige seguro para entrar? A lei prevê uma declaração de que o viajante tem seguro de saúde, mas ela só pode ser exigida depois de regulamentada, e até 15/10/2026 não encontrei a regulamentação. Fonte: Lei 25.871, arts. 34 e 123 bis.
A urgência é de graça até a alta? É atendida na hora, sem pagar antes, até estabilizar. Sem seguro, o que vem depois, até a alta, é somado e cobrado. Fonte: Resolução 1066/2026, Anexo, arts. 2º, 3º e 14.
Tenho 24 horas para avisar a seguradora? As 24 horas da norma são prazo do hospital. O seu, se houver, está no contrato. Fonte: Resolução 1066/2026, Anexo, art. 12.
E hospital de província ou de prefeitura? A resolução não fala deles, e isso não os torna gratuitos: segundo levantamento do Chequeado de abril de 2025, Salta, Mendoza, Jujuy, Santa Cruz e a Cidade de Buenos Aires (esta, só para procedimento marcado) já cobravam de estrangeiros por regra própria. Fonte: Chequeado, 17/04/2025.
Em 30 segundos
- Desde 12/08/2026, o hospital federal argentino cobra antes de atender o estrangeiro sem residência permanente e sem seguro; a urgência com risco de vida é atendida na hora, até estabilizar.
- Com seguro, o hospital confere o seu e manda a conta à seguradora; o que ela não pagar fica com você.
- Antes de embarcar: voucher no papel e no celular, telefone da central, quanto o seguro paga em despesa médica e se vale em hospital público.
Quer que eu leia o seu contrato com você? É o que o Espelho da Apólice faz: cada resposta com a cláusula e a página.
— Carlito de Souza, corretor de seguros desde 1997
De onde veio cada informação6 fontes
- Boletim Oficial da República Argentina, Resolução 1066/2026 (11/08/2026)boletinoficial.gob.ar · consultado em 15/10/2026
- Ministério da Saúde da Argentina, Resolução 1066/2026 com o Anexo, texto em argentina.gob.arargentina.gob.ar · consultado em 15/10/2026
- Lei de Migrações da Argentina (Lei 25.871), texto atualizado: arts. 8º, 34 e 123 bisargentina.gob.ar · consultado em 15/10/2026
- Chequeado: como vai funcionar a cobrança nos hospitais nacionais (11/08/2026)chequeado.com · consultado em 15/10/2026
- Crónica: quatro hospitais aderem à cobrança de estrangeiros sem residência (01/09/2026)cronica.com.ar · consultado em 15/10/2026
- Chequeado: províncias e Cidade de Buenos Aires que já cobravam de estrangeiros (17/04/2025)chequeado.com · consultado em 15/10/2026
Publicado em . Este texto orienta e não substitui a leitura do seu contrato: o que vale, no seu caso, é o que está escrito nele.